sexta-feira, 9 de março de 2012

Amores achados e perdidos



É na noite, no bar pobre, de piso trincado, balcões encardidos e lâmpadas amarelas, que homens decrépitos, agarrados aos corpos e as cinturas das moçoilas, se tornam reis. O Álcool e sabe-se lá o que mais sobem à cabeça, descarregando emoções e potencializando fortalezas. É a vida que passa pela madrugada. Ou são as necessárias madrugadas atravessando a vida?
Discursos ferozes e sensíveis. É o poder de mando que se perde no vento, mas vai se renovar no gole de amanhã. A salvação do mundo está nas palavras destes notívagos da perece esperança e da sempre adiada realidade, que desfraldam a bandeira da vitória como se a vida fosse tão somente um detalhe e o bar um eterno presente. 


Depois da porta dos fundos, surge o paraíso num acanhado corredor com entradas lado a lado. Desvairados noturnos, vampiros em festa sugando fulgazes prazeres ao som de canções derramadas de paixão. Lá na frente para a rua, as vozes gerais, uma babel de sons; os risos abertos e os sentimentos expostos; e os movimentos, sob o ritmo de uma trágica alegria, com hora certa para ter fim, mas com dia marcado para recomeçar...É a catarse programada para o confronto com as tensões, medos e impotências diversas.

Amores achados e perdidos. Sob a luz âmbar, as meninas sem inocência, de todas as idades, estrelas brilhantes, parceiras da noite e de tantos quantos forem buscar conforto, girar seus saltos, e ativam todos os sentidos. Aliviam as dores dos homens ao mesmo tempo em que se esquecem das suas. Encontros nos descaminhos, prazer e sobrevivência, perfumes e suores diversos, mistura de odores e sonhos, palavras soltas e confidências relapsas, beijos cálidos e abraços amigos...

Um mercado de ilusões em que a troca é mais que urgente, é a essência para prosseguir. Enquanto isso, as mariposas dão rasantes suicidas em direção as lâmpadas. Tal qual as meninas. No bar proibido para menores e para maiores virtuosos, a noite é a rainha permissiva.

No primeiro olhar, um ambiente de decadência explícita, a reunião dos que ficaram à margem por razões distintas e não podem ou não querem atravessar para o outro lado. É a soma e a interatividade de todos os vícios. São os escombros morais.

Lados opostos e próximos. O outro olhar é aquele que enxerga além dos móveis e objetos tristes e gastos, dos cômodos pequenos e simples, das garrafas vazias, das canções e das paixões descartáveis. É aquele que tenta clarear as luzes do teatro para desnudar os personagens, tirando-lhes a maquiagem para encontrar o real e compreendê-lo. Esse olhar que busca o entendimento é o que vai fazer poesia...



Feito ao som de Pearl Jam.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Teu nome



Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-me no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O riso do palhaço sem alegria

Outro dia alguém, não sei bem porque e quando , me disse que a vida era um presente divino, e que devíamos saber aproveitá-la, e jamais esquecer de agradecê-la, quem quer que fosse o padrinho. E que por pior que se apresentasse a vida, estar vivo era um milagre dos céus.

-"Deus sempre sabe o que faz", enfatizou o amigo, filósofo de botequim, cheio de paz no coração e repleto de alegria artificial na cabeça.

Fiquei meio assim com essa idéia de que a vida é um presente, porque outro dia também ouvi de um mendigo agradecido pela sobras de um almoço: "cavalo dado não se olha os dentes", nesse mesmo dia o vira-lata ficou sem o seu almoço na lata de lixo. As migalhas não escolhem os miseráveis, elas são presentes do acaso.

É preciso estar no lugar certo, na hora certa, nos diz as pessoas que embrulham os presentes. Mas como os pobres e os vira-latas não têm relógio, sempre chegam atrasados. Assim como os ônibus.

Não sei quem me disse que para entender a vida era preciso conhecer a palavra de Deus, mas como ele nunca apareceu pessoalmente, durante muito tempo acreditei nos mandamentos dos publicitários.

Lembram daquela profecia?"O mundo trata melhor quem se veste bem". Pois é, o mundo dá crédito para quem tem crédito. E quem surgiu primeiro? O antes? O outrora? A noite ou o dia?

Vai vendo a ironia do destino:

Tenho um amigo que estava já algum tempo desempregado, estava vivendo de bicos -sei que tem muita gente que não sabe, mas viver de bico não tem graça nenhuma. Ele agora faz bico em uma loja de sapatos, e a coisa mais engraçada é que ele não é vendedor, nem gerente ou faxineiro, meu amigo é o palhaço da loja. É.

Ele fica na frente da loja vestido de palhaço, fazendo graça para as pessoas que passam. Parece legal né? Mas não é.

Quando eu o vi e o reconheci até que foi meio divertido, não sei se porque o patrão estava olhando, mas seus olhos e a maquiagem mal-feita, o traíram. Estava triste.

Puxa, pensei: um homem desempregado não deveria ser palhaço, ser palhaço não é uma profissão, é um estado de espírito, um dom. Taí, um presente!! E eu sei como é ser assim.

Que tristes tempos nós vivemos, em que os circos se foram para o nunca mais, e os palhaços-trapezistas habitam as lojas de sapatos.

Também tentei fingir, e ri um riso falso de poeta que tem a boca desbotada, para que ele, talvez, se mantivesse digno em seu novo emprego, para que ele talvez se mantivesse firme na corda-bamba dessa vida, que mais parece sapato sem cadarço, para os que têm pés-de-chinelo e as pegadas miúdas que rastreiam o chão duro da felicidade que nunca vem.

Despediu-se de mim com os olhos e partiu arrastando sua tristeza oculta em outra direção. Ele se aproxima de uma menininha que se afasta meio com medo.

A Mãe, sem-graça, diz: "Não tenha medo minha filha, é só um palhaço." (É SÓ UM PALHAÇO?? EU PENSEI...) "Quem dera", pensou ele.

"A Vida não é engraçada, um homem triste a fazer sorrir os outros?", disse a voz do destino , segurando um cartão de crédito sem-limites na mão, e um peito vazio na outra.

Sem saber como chorar, o peito respondeu com os olhos: "Não mãe, não é só um palhaço, é um homem sem emprego, desfrutando o presente da vida".

Mas há os desempregados, que cegos, viram atiradores de facas.
Dói só de lembrar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Início, meio e fim.

Começa assim:

A morbidez acalentando a noite

pisando leve os passos da esperança.

E é quando sonâmbulos seres

se procuram e não se encontram,

que o silêncio se transforma

em grito surdo e cortante

no íntimo destes seres...

E o sofrimento a nascer...

O nada é mais visível...

Penetrante inquietação arvora,

da pele...

Busca inconstante que se parte

Num momento qualquer da vida

quando o eco da procura

encontra resistência no futuro.

E o tempo engole impiedoso

noites e noites sempre iguais

de incontestável solidão!

Já não se pode voltar

não há marcas no caminho.

E a morbidez aumenta...

Perde-se então no esquecimento

... e na caracterização...

Termina assim.







#Postagem de número 100. <3

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O querer de cada dia

Queria ter vivido melhor, porém a mediocridade sempre me foi farta e generosa nos caminhos que escolhi para viver. Queria ter sido mais alegre, porém a tristeza sempre foi companheira fiel nos dias intermináveis de abandono. Queria ter amado mais as pessoas que conheci, ou que fingi conhecer, porém na maioria das vezes, eu também não me conhecia. Queria ter andado mais livre, porém, algemado à ignorância, perdi muito tempo  tentando voar sem sequer saber andar. Queria ter lido mais livros, porém, analfabeto de ousadia, passei muitos anos enxergando pelos olhos adormecido de outras pessoas. Também queria ter escritos mais poemas do que bilhetes pedindo desculpas, porém as palavras sempre me vieram como culpa, quase nunca como estrelas. Queria ter pensado menos no futuro, porém, o passado simples nunca foi o melhor presente. E a eternidade sempre me pareceu coisa de gente que tem preguiça de viver. Queria ter sido um homem mais humilde, porém, a vaidade e a ganância sempre me cercaram de mimos e coisas que até hoje não sei para que serviram. Queria ter pregado mais a paz, porém,  covarde, gastei muita munição tentando atingir amigos e
desconhecidos que não usavam coletes à prova de balas nem blindados no coração. Queria ter dito mais a verdade, porém a mentira sempre foi moeda d troca
 para comprar o respeito e admiração das pessoas fúteis de almas vazias.  Queria que o mundo fosse mais justo, porém, avarento de nascença, fui o 11º a esconder o sol na palma da mão, antes que o vizinho o fizesse. E mesquinho por vocação escondi as noites com lua para que os poetas não a cortejassem. Queria ter dito mais besteiras, porém fui desses idiotas amantes das proparoxítonas...E sujeito oculto nos bate-papos de botecos de esquinas, onde a vida não acontece por decreto. Queria ter colhido mais flores, porém o medo de espinhos afugentou a primavera...E outono que sempre fui, plantei inverno quando a terra pedia verão. Hoje queria ter acordado mais cedo, porém, temo que para mim seja tarde demais.



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Os poetas sofrem
Por gostar de sofrer
Pois a dor, a dor é bela
E é da dor que nascem os mais lindos versos.

A dor do poeta é como o riso do palhaço [ou pierrot]
Ele sente mesmo sem sentir,
Ele gosta mesmo sem gostar,
Pois é dela que vem o encanto de sua arte

E por mais que um palhaço [ou pierrot] não queira sorrir,
Ou um poeta não queira chorar,
O riso e a lágrima afloram de suas almas
E brotam em suas faces, convertendo seus sentimentos

E a alegria do poeta se transforma em dor,
E o riso vira choro,
E ele sofre, ele dói e ele morre,
Mas isso lhe dá prazer

Pois é da dor que nasce a poesia
E a poesia é alimento pra sua alma,
A poesia é o que o faz viver.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Doce ilusão que aflora minha alma, que corta meu coração e sangra minha mente.
Doce delírio que de tanto acreditar, tornou-se real, por instantes, semanas, dias, tão translúcida, tão serena que por 
vezes eu tocava, sentia, cheirava.
Como um sonâmbulo em delírio corri o mundo, Refis meu caminho, saltando de sonho em sonho, tentando trançar 

os fios do destino, tentando tornar o sonho mais longo.
Quem disse que a perfeição é chata, no meu sonho, no caminho de minha fé, ainda tento segurar firme minha razão 
que escorre por entre os dedos…
Oh tempo que me destrói, que sempre me trás a realidade, tão cruel e sem gosto, que dele nem quero mais, amarga 
e sem cor, sem vida….
Que bom seria se meu sonho não acabasse, se nele pudesse continuar vivendo, sobre os rochedos do infinito, sobre 
as certezas do nada…
Mas a realidade é mais forte, mais dura, mais complicada, assim, passo meus dias a pensar nas noites, nas noites 
que começo a viver, onde abro as portas dos sonhos e me jogo por inteiro, na vida que sempre quis….
Porque viver não pode ser um sonho, porque meu sonho não pode ser minha vida…? Assim adormeço e começo a viver…
Doce vida seria a minha, se eu não acordar jamais…...

No mais, vida que segue, calma como um vulcão e arrebatadora como um desabrochar de uma rosa.

Ansioso....